MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

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"Não tenho nenhum talento especial.
Apenas sou apaixonadamente curioso."
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O Testamento de Granito: Memória e Ruína no Coração de Trás-os-Montes

Fotografia de Mário Silva

O Testamento de Granito:

Memória e Ruína no Coração

de Trás-os-Montes

A fotografia captada pela lente atenta de Mário Silva, é um retrato cru e silencioso do interior português.

Sob o título "Ruinas", a imagem transporta-nos para a dureza e a beleza melancólica de Trás-os-Montes, focando-se num esqueleto de pedra que, em tempos, foi o abraço de uma família.

Mais do que um amontoado de granito, esta parede desfeita é um documento histórico sobre a vida, o êxodo e a inexorável passagem do tempo.

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O Eco da Vida Transmontana

Para compreender a magnitude desta ruína, é preciso fechar os olhos por um momento e devolver-lhe o telhado, o calor e as vozes.

Antigamente, uma casa transmontana não era apenas um teto; era uma fortaleza erguida contra um clima impiedoso.

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O Refúgio de Granito: Estas paredes, construídas com pedras irregulares encaixadas meticulosamente por mãos calosas, sem recurso a grandes argamassas, serviam para isolar os habitantes do frio cortante da neve e do calor abrasador do verão.

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O Detalhe da Parede: Na fotografia, observamos um nicho ou fresta quadrangular escavado na própria espessura do muro.

Em tempos, este pequeno buraco terá guardado uma candeia de azeite que iluminava as longas noites de inverno, uma bilha de água fresca ou, quem sabe, a pequena figura de um santo protetor.

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O Coração da Casa: Onde hoje vemos apenas pedra fria banhada pelo sol, outrora ardia a lareira.

Ao redor do fogo cruzavam-se gerações: os avós contavam lendas, as mulheres fiavam a lã e preparavam o caldo, e as crianças aprendiam os valores da terra.

O som estridente das portas de madeira e o mugir do gado no piso inferior eram a banda sonora desta habitação pujante de vida.

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O Peso do Êxodo e o Princípio do Fim

A história do abandono desta casa confunde-se com a história de milhares de outras em Trás-os-Montes.

A ruína não aconteceu de um dia para o outro; foi um processo lento, ditado pela necessidade e pelo isolamento.

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A dureza do trabalho agrícola e a falta de perspetivas empurraram as gerações mais novas para longe, rumo ao litoral de Portugal ou além-fronteiras, em vagas de emigração que esvaziaram as aldeias.

Primeiro, fecharam-se os postigos.

Depois, trancou-se a porta principal com a promessa, muitas vezes adiada, de um regresso no verão.

Sem o calor humano e a manutenção constante, a casa ficou à mercê dos elementos.

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A Anatomia da Decadência

A fotografia ilustra a vitória paciente da natureza sobre a obra humana.

A progressiva decadência desta habitação é visível em cada centímetro da imagem:

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A Queda do Teto: A ausência de qualquer sombra projetada por um telhado e a luz que inunda a estrutura a partir de cima confirmam que a cobertura (provavelmente de madeira e telha) já cedeu há muito.

Sem esta proteção, a chuva infiltrou-se nas paredes, lavando a terra que unia as pedras.

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A Invasão Verde: A natureza não pede licença.

Vemos a vegetação rasteira e as ervas secas — com um longo caule a erguer-se no lado direito da imagem — a tomarem posse daquele que foi o chão de uma família.

Os líquenes cinzentos, pacientemente agarrados ao granito, pintam as pedras, devolvendo-lhes o seu aspeto selvagem original.

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O Deslizamento do Tempo: A estrutura outrora sólida apresenta agora lacunas profundas.

Algumas pedras já cederam à gravidade, alterando o prumo da parede que, embora ainda resista de pé num ato de teimosia muito transmontano, mostra já a fragilidade estrutural de quem perdeu o seu propósito de abrigar.

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No final, esta ruína é um monumento ao silêncio.

A imagem de Mário Silva convida-nos a uma reflexão profunda: perante estas pedras caídas, celebramos a resiliência dos antepassados que as ergueram, mas choramos o esquecimento a que o interior do nosso país foi, sempre, votado.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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