O Suspiro do Tempo:
A Mesa de Pedra e o Vento Suão
(estória)

O vento suão nunca foi um vento de trazer paz.
Nas terras altas do interior, quando este sopro quente e seco se levanta a sul, dizem os mais velhos que tolda o juízo aos homens e inquieta os bichos.
Traz consigo o calor baço e o cheiro a terra ressequida, varrendo os caminhos e sacudindo as copas das árvores com uma urgência invisível.
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Foi num dia assim, de ar pesado e céus de um branco ofuscante, que o velho Matias decidiu subir ao souto abandonado.
Procurava a frescura que a aldeia, sufocada pelo suão, já não lhe conseguia dar.
O caminho, ladeado por fetos altos e giestas, levou-o ao coração da mata, um lugar onde o tempo parecia ter imposto as suas próprias regras.
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Lá, no centro de uma clareira abraçada por troncos robustos e verticais, encontrava-se o altar das suas memórias de juventude, perfeitamente imortalizado na fotografia.
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A Testemunha de Granito
Ao olhar para a imagem, Matias viu exatamente o que a lente de Mário Silva tão poeticamente captou.
A velha mesa de pedra, outrora o ponto de encontro de lenhadores e pastores, fora lentamente engolida pela floresta.
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O Manto de Veludo: A laje pesada e os bancos toscos de granito já não exibiam a sua cor cinzenta original.
Estavam agora forrados por um musgo espesso, verde e luminoso, que a humidade da mata tecera ao longo de décadas.
Era como se a própria natureza tivesse estendido uma toalha de veludo perpétua sobre a pedra.
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As Sentinelas: Ao redor da mesa, os troncos grossos das árvores, salpicados de líquenes, erguiam-se como colunas de um templo antigo, protegendo o silêncio daquele espaço.
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A Vida Silvestre: Nos socalcos do chão, os fetos e a erva alta balançavam timidamente, enquadrando a mesa num mar de tons esmeralda que contrastava com a secura trazida pelo vento suão no exterior da mata.
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Os Ecos Trazidos pelo Vento
Matias aproximou-se devagar.
O vento suão sibilava alto nas copas das árvores acima, fazendo a luz do sol dançar freneticamente sobre o musgo da mesa, mas ali em baixo, junto à pedra, o ar era incrivelmente estático e fresco.
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Passou a mão calosa e enrugada pela superfície felpuda do banco de pedra.
Fechou os olhos.
O vento, que lá fora trazia pó, parecia trazer para dentro da clareira os ecos de um passado distante.
Matias lembrou-se das tardes de domingo da sua infância, quando aquela mesa não tinha musgo.
Era ali que as famílias se juntavam após as colheitas.
Lembrava-se do som das facas a cortar a broa de milho, das malgas de vinho tinto a manchar a pedra crua, das gargalhadas sonoras dos homens e dos segredos partilhados pelas mulheres à sombra do arvoredo.
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A pedra fora polida, ano após ano, pelo roçar dos cotovelos camponeses e pelas mãos rudes que ali encontravam descanso.
Agora, abandonada pelos homens que partiram para a cidade ou para a terra, a floresta reclamara o que era seu.
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Matias sentou-se num dos blocos, sentindo a frescura húmida do musgo trespassar as calças de cotim.
O contraste entre o hálito febril do vento suão lá no alto e a frieza ancestral da pedra fê-lo sorrir.
Não sentiu tristeza pelo abandono do lugar, mas sim uma paz profunda.
A mesa de pedra não estava morta; estava apenas a descansar, guardada pela floresta, a ouvir pacientemente as estórias que o vento suão insistia em lhe contar.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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