O Padrão dos Povos
na Ponte de Trajano:
O Testemunho Milenar de Chaves

Nas margens do rio Tâmega, onde a brisa noturna sussurra antigas lendas galaico-romanas, ergue-se um dos monumentos epigráficos mais significativos da Península Ibérica.
Na fotografia noturna de Mário Silva, deparamo-nos com o "Padrão dos Povos", majestosamente assente na Ponte de Trajano, na histórica cidade de Chaves.
Esta imagem não é apenas um belo registo fotográfico; é um portal direto para a antiga Aquae Flaviae imperial.
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A Epigrafia do Império Romano
A coluna cilíndrica de granito que domina o primeiro plano da imagem é uma autêntica enciclopédia de pedra.
Datado do ano 104 d.C., durante o reinado do imperador Trajano, este monumento honorífico foi erguido para assinalar a conclusão da grandiosa ponte sobre o rio Tâmega.
Esta infraestrutura era uma obra de engenharia fulcral para a via romana (a Via XVII) que ligava Bracara Augusta (Braga) a Asturica Augusta (Astorga).
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As inscrições latinas gravadas no fuste, ainda visíveis e dramaticamente realçadas pela iluminação noturna, relatam com rigor administrativo os nomes dos magistrados romanos envolvidos e prestam a devida homenagem ao imperador César Nerva Trajano Augusto, reconhecendo o seu poder e a vastidão do seu império.
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A Aliança de Dez Povos
Contudo, o que torna o "Padrão dos Povos" uma peça de valor incalculável para a historiografia e arqueologia é o seu caráter profundamente conciliador e agregador.
A inscrição perpetua, para lá da glória de Roma, o nome de dez civitates — povos ou tribos indígenas da região — que cofinanciaram ou participaram com mão de obra na edificação desta ponte.
Entre estas gentes, o padrão eterniza:
Aquaflavienses: Os habitantes originais da próspera Aquae Flaviae (atual Chaves).
Tamagani: Os povos que habitavam e tiravam sustento de todo o vale do rio Tâmega.
Limici: As populações estabelecidas nas margens e na bacia do rio Lima.
Coelerni: Tribos sediadas um pouco mais a norte, na região da atual Galiza.
Quarquerni: Originários da região da atual Baixa Limia, em território vizinho.
Aobrigenses: Um antigo povo pré-romano da Hispânia, integrado na Gallaecia e pertencente ao convento jurídico de Braga (Conventus Bracarensus)
Bibali: antiga tribo que se fixou na região do vale de Verín (Ourense, Galiza), estendendo a sua influência pelas margens do rio Tâmega até à atual fronteira do norte de Portugal.
Equaesi: Antiga tribo de celtas que habitava o Noroeste da Península Ibérica, na zona norte montanhosa de Portugal.
Interamici (Interâmicos): Um povo galaico da região de Trás-os-Montes e zonas fronteiriças em Espanha.
Aebisoci: Tribo de localização incerta, mas pensa-se que viviam perto da região de Chaves.
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Este detalhe lapidar desvenda a eficácia da máquina de romanização, provando que o império não se consolidou apenas pela força das espadas das legiões, mas também através da integração, da diplomacia e da cooperação das elites e populações locais no desenvolvimento das infraestruturas territoriais.
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O Diálogo Entre a Antiguidade e a Modernidade
A mestria da composição de Mário Silva reside na forma subtil como enquadra o peso da história com a leveza do presente.
No primeiro plano, temos a imponência rústica e milenar do padrão romano, ladeado pelo gradeamento de ferro forjado onde repousa, de forma cénica, uma fita vermelha que quebra a paleta noturna.
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Ao fundo, perfeitamente refletida nas águas calmas do Tâmega, descortina-se a arquitetura arrojada e luminosa de uma ponte pedonal contemporânea, suspensa por cabos.
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Esta dualidade ilustra a essência da cidade de Chaves: uma urbe que protege religiosamente o seu inestimável legado romano, mas que continua a construir caminhos em direção ao futuro.
A Ponte de Trajano sobreviveu a inundações severas, conflitos bélicos e ao desgaste implacável de quase dois milénios.
E, sobre ela, o Padrão dos Povos continua firme, ensinando-nos que as pontes mais duradouras da história da humanidade são aquelas que se erguem através do esforço partilhado de diferentes povos.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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