O Esplendor Silencioso do Tempo:
Altar da Capela de Nossa Senhora
das Dores em Nozelos

No silêncio profundo das aldeias transmontanas, o sagrado e o terreno encontram-se frequentemente em lugares onde o tempo parece ter suspendido a sua marcha.
Através desta imagem, o fotógrafo Mário Silva abre-nos as portas de um desses santuários esquecidos: a Capela de Nossa Senhora das Dores, em Nozelos, no concelho de Valpaços.
Mais do que um mero registo fotográfico, esta imagem é um testemunho visual da fragilidade do património e da profunda devoção rural.
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A fotografia revela-nos um altar que, apesar das visíveis cicatrizes deixadas pelos séculos, mantém uma dignidade e uma beleza rústica inegáveis.
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A Arte da Devoção Rural
O retábulo que domina a imagem é um exemplo fascinante da arte sacra de cariz popular, onde a talha dourada e a policromia se unem para recriar um pedaço do céu na terra.
A sua estrutura, de inspiração clássica e maneirista, apresenta detalhes que merecem uma observação atenta:
As Colunas Estriadas: Quatro robustas colunas com fustes estriados em diagonal e capitéis ornamentados dividem o altar, suportando o entablamento e conferindo ritmo e verticalidade à composição.
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As Telas Laterais: Ladeando o nicho central, encontram-se duas pinturas sobre tábua representando figuras femininas (provavelmente santas ou mártires, dada a palma de martírio visível na figura da esquerda).
A pincelada é ingénua e popular, mas carregada da sinceridade de quem pintava para ser compreendido pelo povo.
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O Coroamento Celestial: No topo (o ático), dois anjos esculpidos parecem velar por uma estrutura central fraturada, lembrando-nos que nem os guardiões celestes conseguem travar a inexorável passagem dos anos.
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O Vazio e a Memória
O aspeto mais poético e comovente desta imagem é, paradoxalmente, o que nela falta.
O nicho central, outrora o trono da figura tutelar de Nossa Senhora das Dores, encontra-se vazio.
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No seu lugar, ergue-se apenas uma humilde e desgastada cruz de madeira.
Este vazio, aliado ao fundo dourado baço, não diminui o caráter sagrado do espaço; pelo contrário, sublinha-o.
Recorda as "dores" da própria capela — o desgaste da talha, a perda do brilho original e o isolamento a que muitos destes templos foram votados.
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“O ouro pode ter desbotado e a madeira cedido ao peso dos séculos, mas este altar continua a ser o reflexo intacto da fé inabalável das gentes de Nozelos.”
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As Paredes que Falam
Para além do retábulo de madeira, a fotografia capta ainda os ecos de um passado ainda mais antigo nas paredes laterais e na base do altar (a mensa).
Os frescos desbotados e as pinturas murais — onde se adivinha, à esquerda, o perfil de um soldado ou figura histórica — sugerem que esta capela foi alvo de sucessivas camadas de intervenção ao longo da sua história.
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A obra imortalizada nesta fotografia é um grito silencioso pela preservação da nossa identidade.
Mostra-nos que a verdadeira riqueza de Trás-os-Montes não reside apenas nos grandes monumentos, mas nestes pequenos relicários de aldeia.
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Ao contemplar a beleza melancólica e as marcas do tempo neste altar, que reflexões lhe suscita o atual estado de conservação do património religioso e cultural do nosso interior?
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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