O desentendimento inesperado entre
a Borboleta “Melanargia lachesis”
e a “Centaurea vicentina”
(estória)

Crónica de uma Aterragem Atribulada:
Alta-Costura vs. Cabelo Punk
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O Alentejo litoral brilhava sob um sol de trinta graus quando o inesperado espetáculo da diplomacia natural falhou rotundamente.
O cenário, captado com precisão cirúrgica na fotografia, parecia saído de um postal romântico, mas a realidade por trás dos bastidores era digna de uma comédia de costumes.
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Tudo começou quando a Dona Melanargia, uma borboleta “Melanargia lachesis” de linhagem nobre e hábitos aristocráticos, decidiu fazer uma paragem técnica para reabastecimento.
Sentia-se a criatura mais elegante da Costa Vicentina, vestindo um padrão axadrezado em preto e branco que faria inveja a qualquer criador de moda parisiense.
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O plano de Melanargia era pousar com a leveza de uma pluma numa flor qualquer.
O problema?
Escolheu a “Centaurea vicentina”.
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O Drama do "Tapete de Faquir"
A Centaurea vicentina, carinhosamente conhecida no meio botânico como "Centie", não era uma flor de meias medidas.
Orgulhosa das suas pétalas rústicas, fúcsia-vibrantes e assumidamente espetadas — num estilo puramente punk rock dos anos 80 —, Centie estava a meio de uma sesta quando sentiu o impacto.
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O diálogo que se seguiu (traduzido livremente do dialeto aero-botânico) não foi propriamente pacífico:
Melanargia (altiva, ajeitando as antenas): — “Valha-me a deusa das lagartas! Ó criatura, podias ter amaciado estas pétalas antes de eu aterrar? Parece que aterrei no tapete de agulhas de um faquir! Quase desalinhei as minhas escamas da ala esquerda!”
Centaurea (aborrecida, sacudindo os estames): — “Desculpa lá, ó tabuleiro de xadrez com asas! Quem é que te deu autorização para estacionares essa popança no meu salão de beleza? Sabes quanto custa manter este volume e esta cor sob o vento da costa? Sou uma espécie endémica protegida por diretivas europeias, ouviu?”
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Melanargia (ofendida): — “Endémica? Pois ficas a saber que eu sou uma Melanargia lachesis! Sou arte viva em movimento! Devias pagar-me uma comissão em néctar só pelo privilégio de eu contrastar o meu preto-e-branco clássico com esse teu rosa-choque berrante!”
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A Chantagem do Néctar
A discussão subiu de tom.
Centie, decidida a não facilitar o pequeno-almoço à visitante ruidosa, recolheu estrategicamente o seu néctar para as profundezas do cálice da flor.
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"Queres néctar do bom? Vai pedir ao cardo ali do lado, que eu hoje estou fechada para balanço!" — ameaçou a Centaurea.
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Melanargia, por sua vez, abriu as asas em toda a sua extensão (exatamente como a vemos fazer na imagem, não por prazer, mas como uma tática de intimidação visual, tentando tapar o sol à flor.
"Se não há menu de degustação, também não há fotossíntese para ninguém!", ameaçou a borboleta.
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O Clique Salvador
O desentendimento ameaçava escalar para um boicote biológico completo quando, de repente, um ruído mecânico ecoou pelo matagal: Click!
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Do outro lado da lente, o fotógrafo Mário Silva observava a cena, maravilhado com a "perfeita harmonia e simbiose da natureza".
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Ao perceberem a presença da câmara e o logotipo "MS" prestes a ser imortalizado no canto inferior direito, o instinto de sobrevivência social das duas divas falou mais alto.
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Melanargia congelou imediatamente na sua melhor pose de modelo fotográfica, exibindo o rendilhado das asas com um garbo impecável.
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Centie esticou ao máximo as suas pontas roxas para parecer o mais majestosa e viçosa possível na fotografia.
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Ficaram imóveis, fingindo ser as melhores amigas do ecossistema até o fotógrafo se afastar.
Assim que Mário Silva recolheu o equipamento, Melanargia levantou voo com um sussurro desdenhoso: "Agradece ao fotógrafo, querida, porque o teu perfil esquerdo até ficou aceitável."
E Centie, aliviada, voltou a balançar ao vento, guardando o seu precioso néctar para alguém com menos manias de grandeza.
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Estória & Fotografia: ©MárioSilva
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