"Mendicidade à porta da igreja”
Mário Silva (IA)

A obra digital de Mário Silva, apresenta uma estética expressionista marcada por pinceladas espessas, retorcidas e dramáticas.
Em primeiro plano, domina a figura esquelética, envelhecida e sofredora de uma mulher em farrapos, que estende a mão num gesto de mendicidade sobre uma malga quase vazia.
Em brutal contraste com esta miséria carnal, ergue-se em segundo plano uma igreja imponente, de arquitetura clássica e adornada.
O quadro é um grito visual que contrapõe a opulência institucional à mais crua miséria humana, sob um céu revolto que acentua a tensão da cena.
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O Preço do Pórtico (estória)
A pesada porta de carvalho cedeu, libertando para a rua fria o cheiro a incenso denso e a cera derretida.
Lá dentro, o altar recém-restaurado com folha de ouro refletia a luz dos vitrais; cá fora, o céu de chumbo desabava sobre os ombros descarnados de Maria.
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Ela já não era bem uma mulher; era um feixe de nervos, ossos e fome, embrulhada em tecidos que há muito tinham perdido a cor original.
Estendeu a mão calosa.
Não pedia muito.
Apenas o suficiente para enganar a miséria que lhe devorava as entranhas, sob o olhar fixo e indiferente dos santos de pedra que adornavam a fachada.
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O Padre Elias saiu apressado, ajustando a estola de seda bordada a fios dourados.
O seu olhar cruzou-se com o de Maria.
Não houve compaixão nessa troca, apenas o enfado burocrático de quem encontra um obstáculo no caminho.
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— Tens de te arredar da entrada, mulher — murmurou o sacerdote, usando a mesma voz polida e aveludada com que, minutos antes, pregara sobre a virtude da caridade. — O Senhor Bispo vem visitar a paróquia hoje à tarde.
As câmaras de televisão estarão presentes para cobrir a inauguração do novo sacrário.
A tua figura... destoa da dignidade da Casa de Deus.
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Maria não recolheu a mão.
Os seus olhos encovados, fundos como poços secos, fixaram o padre.
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— Sempre ouvi dizer que esta era a casa dos desamparados, Senhor Padre. Dos pobres de espírito e de corpo.
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Elias suspirou, impaciente, verificando o relógio de pulso que brilhava discretamente debaixo da manga.
— E é, Maria. No plano espiritual, o Reino dos Céus é vosso. Mas na terra, a fé precisa de esplendor para inspirar os crentes. A miséria demasiada afasta as famílias de bem; a grandeza e a beleza atraem as doações que sustentam a nossa obra. Vai para a rua de baixo. Deus ver-te-á lá na mesma.
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Como remate da sua justificação, atirou uma moeda de pouco valor para a malga de barro de Maria.
O tilintar metálico soou menos a esmola e mais a um insulto cobarde.
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Maria ficou em silêncio enquanto a batina impecável desaparecia na calçada empedrada.
Atrás de si, a igreja erguia-se majestosa, um cofre de tesouros incalculáveis blindado pela hipocrisia dos homens.
Lá dentro, no topo do altar de ouro, pendia um Cristo nu e crucificado que, se por milagre descesse àquela porta naquele momento, seria muito provavelmente escorraçado pelo Padre Elias por sujar a escadaria com o sangue das suas feridas.
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Texto & Obra digital (IA): ©MárioSilva
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