MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

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"Não tenho nenhum talento especial.
Apenas sou apaixonadamente curioso."
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"Mairos - a raia com Espanha” O Palco de Silêncios e Linhas de Sobrevivência na Raia Transmontana

Fotografia de Mário Silva

"Mairos - a raia com Espanha”

O Palco de Silêncios e

Linhas de Sobrevivência 

na Raia Transmontana

Olhar para a fotografia de Mário Silva, intitulada "Mairos - a raia com Espanha”, é contemplar uma aparente calmaria que esconde séculos de histórias vibrantes, perigosas e vitais.

A imagem mostra-nos a típica envolvência desta aldeia do concelho de Chaves: o casario cor de ocre com telhados avermelhados estende-se pela encosta, coroado por uma imponente igreja à esquerda.

Em segundo plano, erguem-se as montanhas transmontanas vestidas com o manto amarelo das giestas, e, no horizonte imediato, adivinha-se a linha invisível da fronteira com a Galiza.

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Hoje, Mairos repousa pacífica sob o sol, mas houve um tempo em que esta proximidade geográfica com o país vizinho transformou a aldeia num dos pontos mais estratégicos, desafiantes e importantes para a sobrevivência do povo português: a era do contrabando.

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A Linha que Unia em Vez de Separar

Durante as décadas de meados do século XX, sob a asfixia económica do Estado Novo em Portugal e o isolamento do pós-guerra civil na Espanha franquista, a fome e a escassez eram fantasmas bem reais.

Neste cenário de privação, as fronteiras oficiais — guardadas à lupa pela dura e implacável Guarda Fiscal portuguesa e pela Guardia Civil espanhola — tornaram-se barreiras absurdas para quem precisava de comer.

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Mairos, pela sua localização privilegiada de "terra raiana", assumiu um papel salvador.

Para os habitantes locais e para os que vinham do interior do país, a raia não era uma separação, mas sim uma passagem, um cordão umbilical de comércio clandestino que ditava a diferença entre a miséria extrema e a dignidade de pôr comida na mesa.

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Os Caminhos Ocultos do Granito e da Giesta

A importância de Mairos no xadrez do contrabando assentava em três pilares fundamentais, muitos deles sugeridos pela própria geografia captada na imagem:

Geografia Protetora: As montanhas escarpadas e cobertas por vegetação densa que vemos ao fundo da fotografia funcionavam como aliadas perfeitas.

Os "carreiros" ou caminhos de cabras eram conhecidos apenas pelos nativos.

Nas noites sem lua, o mato cerrado e as giestas serviam de camuflagem ideal para os homens e mulheres que carregavam fardos pesados às costas.

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Os Bens da Sobrevivência: De Mairos para a Galiza saía sobretudo o café, o açúcar, o volfrâmio (durante a Segunda Guerra Mundial), o gado e o sabão.

Em sentido inverso, os portugueses traziam tecidos, farinha, tabaco, ferramentas e marisco.

Era uma economia paralela que abastecia não apenas a região de Chaves, mas que alimentava redes que chegavam aos grandes centros urbanos de Portugal.

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A Cumplicidade Coletiva: Numa aldeia raiana como Mairos, o contrabando não era visto como um crime, mas sim como uma jorna de trabalho.

Havia uma rede de solidariedade silenciosa.

As casas de pedra da aldeia — muitas das quais vemos alinhadas na fotografia — serviam de armazéns improvisados.

O próprio posicionamento elevado da aldeia permitia vigiar a aproximação dos "mulas" (fiscais), sendo o aviso dado através de assobios ou sinais combinados de luzes.

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O Legado da Resiliência

O contrabando era uma atividade que exigia uma coragem sobre-humana.

Homens e mulheres caminhavam quilómetros descalços ou com sapatos de corda, enfrentando a neve do inverno transmontano, o calor sufocante do verão e o medo constante de uma descarga de espingarda na escuridão.

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A fotografia de Mário Silva, emoldurada pelo pormenor das pitas no primeiro plano e o selo dourado "MS", é um documento visual que resgata essa memória.

Lembra-nos de que a beleza bucólica de Mairos foi forjada na têmpera da resiliência.

Sem o arrojo desta e de outras aldeias da raia, a história económica e social do interior de Portugal teria sido incomensuravelmente mais trágica.

Mairos não era apenas o fim do mapa de Portugal; era onde a vida teimava em continuar.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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