MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

*****
"Não tenho nenhum talento especial.
Apenas sou apaixonadamente curioso."
*****

“Levando o burrito para o lameiro” Tinhela – Valpaços – Portugal

Fotografia de Mário Silva

“Levando o burrito para o lameiro”

Tinhela – Valpaços – Portugal

.

O Minuto de Fama de Baltazar:

O Burrito Vaidoso de Tinhela

Na pacata aldeia de Tinhela, no concelho de Valpaços, o tempo costuma correr ao ritmo das estações e das passadas lentas dos animais.

É exatamente esse compasso tranquilo que a fotografia captada pela objetiva atenta de Mário Silva, nos transmite.

Contudo, por trás desta cena aparentemente banal de uma ida para o pasto, esconde-se uma estória de teimosia, vaidade e um inusitado encontro com a tecnologia.

.

A Rotina Interrompida

Eram horas de ir para o lameiro.

A Ti' Ermelinda, vestida com o seu rigoroso e tradicional luto fechado, pegou na corda grossa de sisal para guiar o Baltazar, o burrito lá de casa.

O plano era simples e repetia-se todos os dias: descer a rua de alcatrão e virar para a berma, onde a erva fresca e as pequenas flores roxas do campo aguardavam o apetite voraz do animal.

O Baltazar, com o seu pelo farto e desgrenhado, cor de palha seca, seguia o passo da dona com a habitual pachorra transmontana.

Tudo decorria na normalidade, até que um elemento estranho quebrou a rotina da aldeia.

.

O Encontro com a Lente

Subitamente, as quatro patas de Baltazar cravaram-se no alcatrão.

A Ti' Ermelinda, sentindo o esticão na corda, virou o corpo e aplicou um puxão firme.

Nada.

O burrito, conhecido por ser dócil, ativou o modo de teimosia ancestral da sua espécie.

Mas, curiosamente, o motivo da sua paragem não era preguiça nem o medo de uma cobra na erva.

Do outro lado da estrada estava Mário Silva, de máquina fotográfica em punho.

.

Ao contrário da Ti' Ermelinda, que manteve o olhar fixo no lameiro, ignorando a presença do fotógrafo com a discrição típica das gentes da terra, Baltazar ficou fascinado.

O burrito rodou o pescoço e fixou os seus grandes olhos escuros e expressivos diretamente na lente.

Com as orelhas espetadas em sinal de alerta e curiosidade, fez uma pose digna de um retrato de estúdio.

A corda tensa na mão da dona apenas acentuava a sua recusa cómica em avançar: naquele momento, a erva fresca podia esperar.

Ele estava a ter o seu minuto de fama.

.

O Registo Imortalizado

O clique da máquina eternizou este instante delicioso.

A fotografia revela um contraste maravilhoso e poético:

A Tradição: A figura escura e diligente da mulher, focada no trabalho e no sustento, representando a alma trabalhadora do interior de Portugal.

A Irreverência: O burrito despenteado que, num rasgo de personalidade, decide quebrar a quarta parede e interagir com quem o observa.

.

Assim que a fotografia foi tirada, dizem na aldeia que Baltazar soltou um pequeno bufo pelas narinas, cedeu finalmente ao puxão da corda de sisal e mergulhou o focinho no verde do lameiro, retomando a sua vida de pacato burro transmontano, mas guardando para sempre o orgulho do dia em que parou o trânsito em Tinhela para ser o modelo principal de uma obra de arte.

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

3