“Levando o burrito para o lameiro”
Tinhela – Valpaços – Portugal

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O Minuto de Fama de Baltazar:
O Burrito Vaidoso de Tinhela
Na pacata aldeia de Tinhela, no concelho de Valpaços, o tempo costuma correr ao ritmo das estações e das passadas lentas dos animais.
É exatamente esse compasso tranquilo que a fotografia captada pela objetiva atenta de Mário Silva, nos transmite.
Contudo, por trás desta cena aparentemente banal de uma ida para o pasto, esconde-se uma estória de teimosia, vaidade e um inusitado encontro com a tecnologia.
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A Rotina Interrompida
Eram horas de ir para o lameiro.
A Ti' Ermelinda, vestida com o seu rigoroso e tradicional luto fechado, pegou na corda grossa de sisal para guiar o Baltazar, o burrito lá de casa.
O plano era simples e repetia-se todos os dias: descer a rua de alcatrão e virar para a berma, onde a erva fresca e as pequenas flores roxas do campo aguardavam o apetite voraz do animal.
O Baltazar, com o seu pelo farto e desgrenhado, cor de palha seca, seguia o passo da dona com a habitual pachorra transmontana.
Tudo decorria na normalidade, até que um elemento estranho quebrou a rotina da aldeia.
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O Encontro com a Lente
Subitamente, as quatro patas de Baltazar cravaram-se no alcatrão.
A Ti' Ermelinda, sentindo o esticão na corda, virou o corpo e aplicou um puxão firme.
Nada.
O burrito, conhecido por ser dócil, ativou o modo de teimosia ancestral da sua espécie.
Mas, curiosamente, o motivo da sua paragem não era preguiça nem o medo de uma cobra na erva.
Do outro lado da estrada estava Mário Silva, de máquina fotográfica em punho.
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Ao contrário da Ti' Ermelinda, que manteve o olhar fixo no lameiro, ignorando a presença do fotógrafo com a discrição típica das gentes da terra, Baltazar ficou fascinado.
O burrito rodou o pescoço e fixou os seus grandes olhos escuros e expressivos diretamente na lente.
Com as orelhas espetadas em sinal de alerta e curiosidade, fez uma pose digna de um retrato de estúdio.
A corda tensa na mão da dona apenas acentuava a sua recusa cómica em avançar: naquele momento, a erva fresca podia esperar.
Ele estava a ter o seu minuto de fama.
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O Registo Imortalizado
O clique da máquina eternizou este instante delicioso.
A fotografia revela um contraste maravilhoso e poético:
A Tradição: A figura escura e diligente da mulher, focada no trabalho e no sustento, representando a alma trabalhadora do interior de Portugal.
A Irreverência: O burrito despenteado que, num rasgo de personalidade, decide quebrar a quarta parede e interagir com quem o observa.
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Assim que a fotografia foi tirada, dizem na aldeia que Baltazar soltou um pequeno bufo pelas narinas, cedeu finalmente ao puxão da corda de sisal e mergulhou o focinho no verde do lameiro, retomando a sua vida de pacato burro transmontano, mas guardando para sempre o orgulho do dia em que parou o trânsito em Tinhela para ser o modelo principal de uma obra de arte.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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