MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

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"Não tenho nenhum talento especial.
Apenas sou apaixonadamente curioso."
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Fonte de mergulho (1810) – Samaiões – Chaves – Portugal

Fotografia de Mário Silva

Fonte de mergulho (1810) – Samaiões – Chaves – Portugal

A fonte que já foi Fonte de Vida

A Fonte que já foi Vida:

O Silêncio de Pedra em Samaiões

Há pedras que não são apenas matéria gélida; são os arquivos silenciosos da memória de um povo.

Na fotografia de Mário Silva, captada em Samaiões, no concelho de Chaves, deparamo-nos com um desses monumentos erguidos não a reis ou a batalhas, mas à própria sobrevivência.

O título, "Fonte de mergulho (1810) – A fonte que já foi Fonte de Vida", encerra em si uma melancolia profunda, um lamento pelo tempo que passa e pelas vozes que o vento levou.

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Olhar para esta imagem é fazer um exercício de empatia e viagem no tempo.

Datada de 1810, com os números ainda timidamente desenhados a um tom avermelhado no frontão triangular de granito, esta fonte testemunhou mais de dois séculos de invernos rigorosos e verões escaldantes em Trás-os-Montes.

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O Ritual do Mergulho

Diferente das fontes de bica, onde a água corre ao nosso encontro, a "fonte de mergulho" exigia reverência.

Era preciso curvar o corpo, num gesto de quase submissão à natureza, para mergulhar o cântaro de barro nas entranhas húmidas da terra.

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Nesta arquitetura humilde, vislumbramos uma época em que a água não jorrava de torneiras de metal dentro de casa, mas exigia uma peregrinação diária:

O Ponto de Encontro: Mais do que matar a sede, este pequeno quadrado de escuridão refrescante era o epicentro social da aldeia.

Ali se trocavam confidências, se choravam mágoas e se partilhavam as alegrias do quotidiano rural.

O Peso da Água: O granito desgastado nas bordas é o diário não escrito dos milhares de cântaros que ali se apoiaram, carregados aos ombros ou à cabeça por mulheres de mãos rudes e corações inteiros.

A Promessa de Vida: Num mundo dependente da terra, aquela água cristalina era a diferença entre a fartura e a fome, o conforto e o desespero.

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O Abraço Lento do Esquecimento

Hoje, o cenário captado pela objetiva de Mário Silva é de um silêncio avassalador.

A ausência humana cedeu lugar ao avanço imparável da natureza.

A estrutura de pedra, antes gasta pelo toque constante, veste agora um manto espesso de musgo dourado e líquenes prateados.

As silvas, as urtigas e as heras circundam a entrada, como guardiãs de um santuário abandonado, tecendo uma cortina verde que protege as águas paradas que ainda possam habitar o seu interior.

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A "Fonte que já foi Vida" repousa agora no seu próprio passado.

Não há cântaros, não há passos apressados, não há o murmúrio das conversas ao fim do dia.

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O tema quase poético que esta fotografia exige escreve-se, afinal, sozinho nas entrelinhas do musgo.

Mário Silva obriga-nos a parar e a contemplar esta transitoriedade.

A fonte de Samaiões lembra-nos que as construções mais vitais de outrora podem, um dia, tornar-se apenas cicatrizes belas e adormecidas na paisagem — esperando que alguém, através de uma simples fotografia, lhes devolva, por breves instantes, a vida e a dignidade de outrora.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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