MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

***
"A tinta ganha calor quando viaja do nosso papel para o coração de quem lê."
"A lente capta a luz, mas é na partilha que a fotografia encontra o seu verdadeiro reflexo."
***

"Dia de Finados - Porque choram?!!!! teatralidade ou emoção?!!!"

Obra digital sob curadoria de Mário Silva

"Dia de Finados - Porque choram?!!!!

teatralidade ou emoção?!!!"

Esta ilustração digital, sob a curadoria de Mário Silva, adota um estilo expressionista noturno de forte impacto visual, dominado por uma textura em impasto espessa e escultórica que confere relevo e vibração dramática a cada elemento da composição.

.

O Cenário Cemiterial: A cena retrata um cemitério tradicional português durante a noite do Dia de Finados.

Em primeiro plano, destacam-se campas de pedra de granito cinzento, densamente cobertas por arranjos florais exuberantes (crisântemos amarelos, brancos e roxos) e dezenas de velas acesas acondicionadas em copos de vidro.

.

A Atmosfera Noturna e a Lua: No centro da campa do primeiro plano sobressai uma grande cruz de pedra.

O fundo exibe uma silhueta de ciprestes esguios, capelas funerárias e outras lápides sob um céu noturno turbulento, pintado em tons de azul-escuro e roxo, rasgado por nuvens iluminadas pela luz intensa e mística de uma lua cheia radiante.

.

Selo de Curadoria: No canto inferior direito, discretamente integrado sobre a base da campa de pedra, encontra-se o selo circular com as iniciais douradas "MS".

.

O Teatro dos Finados

Velas Caras, Lágrimas de Barato

e a Competição do Jazigo

Chega o Dia de Finados e parece que se acende um interruptor coletivo na consciência nacional.

De repente, o cemitério transforma-se na passarela mais concorrida da freguesia.

É um desfile de luto a rigor, óculos escuros de marca para disfarçar o sol (ou a falta de olheiras legítimas), coroas de flores que custam mais do que o ordenado mínimo de um dia e uma quantidade industrial de velas que iluminaria a pista do aeroporto Francisco Sá Carneiro.

.

Mas ponhamos a mão na consciência e olhemos para a crueldade da farsa: onde é que esta gente toda andava quando o defunto andava por cá a penar, a arrastar as pernas, a precisar de um remédio, de uma palavra de conforto ou de ajuda para carregar as compras?

.

Em vida, passavam por ele na rua e fingiam que não o viam, ou mudavam de passeio para não ter de aturar os resmungos da velhice.

Mas basta o homem esticar a canela para que o chorrilho de lágrimas falsas comece a jorrar como se de uma nascente milagrosa se tratasse.

.

É a eterna feira da vaidade e da hipocrisia social.

As flores não são postas pelo amor ao ente querido; são postas para o vizinho do lado ver!

Se o jazigo do lado tem crisântemos amarelos, o nosso tem de ter o dobro, e de preferência importados e com fita preta a condizer.

É uma competição feroz para provar aos vivos — repita-se, aos vivos — que somos os filhos mais dedicados, os amigos mais piedosos e os cidadãos mais compassivos do concelho.

.

Terminada a missa, cumprida a vénia de praxe à lousa e espetadas as velas nos copos de vidro, desata o verdadeiro milagre do Dia dos Finados: o luto desaparece com a velocidade da luz!

A lágrima seca num nanossegundo, o rosto crispado de dor transforma-se num sorriso largo, e toda a comitiva arranca em direção à tasca mais próxima ou ao magusto com os amigos para enfardar castanhas, regadas a vinho novo e gargalhadas estridentes até às tantas.

Afinal de contas, a alma do defunto já está aviada, e a barriga dos vivos também não pode esperar.

.

Ao contemplar este mar de velas brilhantes e flores faustosas sob a luz fria da lua, considera que este ritual anual cumpre uma verdadeira função de catarse e respeito pela memória familiar, ou transformou-se num lamentável exercício de teatro social onde a hipocrisia e a competição superam a verdadeira saudade?

.

Texto & Obra digital (IA): ©MárioSilva

.

.

0