“Cores da Terra (Peso da Lida)”
Alfredo Cabeleira

A obra é uma comovente e dignificante homenagem à mulher rural transmontana e ao esforço diário do trabalho na terra.
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A Figura Central: No centro absoluto do primeiro plano, caminha uma mulher idosa de pés descalços sobre o chão húmido e pedregoso.
Transporta à cabeça uma carga monumental de erva fresca e folhagem verde-alegre, atada num pano de ráfia ou sarapilheira, segurando-a firmemente com a mão esquerda.
O seu rosto, marcado pelas rugas do tempo e do sol, ostenta uma expressão de profunda resignação, serenidade e força inabalável.
Veste a indumentária tradicional de trabalho: um lenço atado sob o queixo, uma blusa de tons terrosos, um avental escuro e uma saia comprida.
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O Caminho e os Lameiros: A mulher avança por um caminho de terra batida sulcado por poças de água que refletem o azul e o dourado do céu.
De ambos os lados estendem-se prados viçosos (lameiros), delimitados por seculares muros de pedra seca em granito.
À esquerda, num prado mais amplo junto a um pequeno espelho d'água, avista-se um pequeno rebanho de ovelhas a pastar perto de um Palheiro tradicional.
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A Arquitetura e o Horizonte: No plano médio à direita, o caminho serpenteia em direção a um conjunto de casas de lavoura construídas em alvenaria de granito com telhados de canudo.
Ao fundo, suaves colinas e montanhas alinham-se sob um céu crepuscular magnificamente pintado com gradações de amarelo-ouro, laranja, rosa e azul-claro.
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Técnica e Estilística
Nesta tela da série "Cores da Terra", Alfredo Cabeleira reafirma o seu domínio do naturalismo figurativo e etnográfico, aliando uma rigorosa observação do meio rural a uma enorme sensibilidade poética.
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Composição e Centralidade: A figura humana está posicionada no eixo central da tela, atuando como o pilar estrutural de toda a paisagem.
A carga verde que transporta abre-se em leque no topo, criando um equilíbrio visual quase simétrico com o caminho que se abre aos seus pés.
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A Paleta Cromática ("Cores da Terra"): A obra vive de um contraste vibrante entre o calor dos tons terrosos (o ocre do caminho, o castanho das vestes e o dourado do entardecer) e a vivacidade dos verdes saturados da vegetação.
O brilho da água nas poças e o céu de fim de tarde trazem notas de luz que aliviam a gravidade do tema.
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Tratamento da Luz e Textura: A iluminação é quente e lateral, típica do pôr do sol, moldando os volumes do rosto da camponesa, a textura áspera da pedra e a humidade da terra.
Há um trabalho minucioso na representação das pregas do vestuário, do grão do granito e da leveza da erva cortada.
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Atmosfera e Interpretação
"O Peso da Lida" não é uma celebração da miséria, mas sim um monumento pintado à dignidade, resiliência e força ancestral da mulher de Trás-os-Montes e do Barroso.
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A atmosfera da pintura é marcada por um profundo respeito pelo sacrifício humano:
O Contacto Direto com a Terra: O facto de a mulher caminhar descalça no caminho de lama e pedra é o símbolo mais forte da obra.
Traduz a ligação física, crua e umbilical do povo transmontano ao seu solo nativo — uma relação de pertença total onde a terra alimenta, mas também exige o suor do corpo.
A Herança do Trabalho Feminino: Durante gerações, as mulheres do interior de Portugal carregaram literalmente às costas e à cabeça o sustento da casa e do gado.
Cabeleira imortaliza esse papel crucial, mas tantas vezes invisível, transformando o "peso da lida" numa imagem de grande nobreza e monumentalidade moral.
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Texto: ©MárioSilva
Pintura: Alfredo Cabeleira
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