MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

*****
"Não tenho nenhum talento especial.
Apenas sou apaixonadamente curioso."
*****

“Casa com ameias, mas nunca foi um castelo” - Lampaça – Lebução – Vinhais – Portugal

Fotografia de Mário Silva

“Casa com ameias,

mas nunca foi um castelo”

Lampaça – Lebução – Vinhais – Portugal

O Feudo Inexpugnável de Vinhais:

Onde as Ameias Defendem dos Olhos do Vizinho

A lente de Mário Silva captou, com cirúrgica precisão, um dos maiores mistérios geoestratégicos do Nordeste Transmontano.

Ali, na pacata localidade de Lampaça, em Lebução (Vinhais), ergue-se uma estrutura que faria tremer qualquer exército de Castela — ou, pelo menos, qualquer arquiteto com tendências cardíacas.

O título da fotografia não deixa margem para equívocos: “Casa com ameias, mas nunca foi um castelo”.

.

E ainda bem.

Porque a história militar portuguesa claramente não estava preparada para este nível de sofisticação residencial.

.

A Urgência Estratégica do Escalão de Lampaça

Numa análise puramente militar, a moradia revela uma preocupação louvável com a segurança nacional (ou familiar).

Num Portugal pacífico do século XXI, o proprietário desta magnífica cidadela decidiu que os métodos tradicionais de isolamento — como sebes ou muros de blocos — eram demasiado vulgares.

Para quê ter um telhado normal quando se pode coroar a laje de betão com uma imponente linha de ameias recortadas a vermelho-vivo?

.

A estrutura está claramente preparada para os piores cenários que o quotidiano de Vinhais possa trazer:

Repulsão de Linhas Inimigas: As ameias oferecem a cobertura perfeita para o lançamento de baldes de azeite a ferver, caso o carteiro decida trazer faturas indesejadas.

O Cerco das Finanças: Uma barreira psicológica intransponível.

Qualquer inspetor tributário pensará duas vezes antes de assaltar uma torre de menagem fortificada com estores exteriores.

Vigilância de Fronteira: A torre adossada ao flanco esquerdo garante uma linha de visão desimpedida para controlar se as ovelhas do vizinho estão a invadir o território soberano do quintal.

.

O Ecletismo Arquitetónico:

Das Cruzadas a Trás-os-Montes

Onde os puristas da história da arte veriam um anacronismo bizarro entre as fortificações medievais do século XII e as janelas de guilhotina modernas, o olhar atento do fotógrafo descobre o verdadeiro génio do Design Vernacular Transmontano.

.

A composição visual é enriquecida por um detalhe magistral: uma palmeira.

A presença desta árvore exótica encostada à muralha confere à vivenda um ambiente de Cruzadas na Terra Santa.

É como se Ricardo Coração de Leão tivesse decidido reformar-se em Trás-os-Montes, mas tivesse trazido uma recordação vegetal do Médio Oriente para disfarçar o rigor do inverno de Vinhais.

.

“Quem precisa de D. Afonso Henriques quando se tem um camião de cimento, um balde de tinta vermelha e um sonho de nobreza?”

.

Conclusão: O Homem Sonha, a Betoneira Nasce

Mário Silva imortalizou mais do que uma habitação; registou o espírito indomável do cidadão que recusa submeter-se à ditadura do PDM (Plano Diretor Municipal) e às regras da estética convencional.

.

Esta casa pode nunca ter albergado reis, infantes ou cercos medievais lendários.

Nunca viu uma catapulta ou um arqueiro de arco longo.

Mas tem algo infinitamente superior: a liberdade poética de quem decidiu que o seu lar é, literal e visualmente, o seu próprio castelo.

Nem que para isso seja necessário fingir um bocadinho.

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

0