Casa à Espera da Volta

Há uma quietude muito própria que se deita sobre as pedras de granito de Trás-os-Montes.
É um silêncio que não significa ausência, mas sim uma presença em suspenso.
Na fotografia de Mário Silva, captada em Águas Frias, no concelho de Chaves, essa quietude ganha corpo e alma numa habitação que é o reflexo de tantas outras espalhadas pelo interior de Portugal.
O título não podia ser mais certeiro, quase cirúrgico na emoção que desperta: "Casa à espera da volta".
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Olhar para esta imagem é fazer uma viagem no tempo e no afeto.
A arquitetura, robusta e orgulhosa, ergue-se com a dignidade do granito claro, cortado em blocos que testemunham o esforço de mãos antigas.
O telhado, de uma cor laranja viva e bem cuidada, contrasta com o cinzento da pedra, lembrando-nos de que aquela não é uma ruína abandonada ao fado do tempo.
Há ali cuidado, há ali uma intenção.
A casa mantém-se impecável, as portadas de madeira escura estão fechadas, resguardando a intimidade e as memórias que ficaram lá dentro, trancadas à chave, mas vivas.
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O portão de ferro, encimado por um pequeno alpendre de telhas que replica o teto principal, funciona como um portal de transição.
Está fechado, protegendo o pátio, ladeado por pilares de pedra onde a vegetação rasteira e o mato seco começam a ensaiar um avanço tímido.
É esse mato, salpicado pelo amarelo das ervas silvestres da época estival, que nos sussurra a verdade daquela moldura: a vida quotidiana, aquela que gasta o chão com passos e enche o ar com o fumo da lareira, está temporariamente noutro lugar.
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No entanto, a natureza em redor recusa-se a deixar morrer o cenário.
Uma árvore frondosa, carregada de um verde vibrante, abraça a fachada esquerda da casa, como se lhe fizesse companhia na solidão.
À direita, os pinheiros e arbustos erguem-se como sentinelas fiéis, guardando a propriedade.
A própria chaminé, limpa e altiva, parece desenhar no céu a promessa de que, a qualquer momento, o calor regressará ao lar.
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"Casa à espera da volta" é, no fundo, o retrato fiel do Portugal da diáspora e do apego às raízes.
É a narrativa visual daquela casa que passa meses a fio em recolhimento, adormecida na pacatez da aldeia flaviense de Águas Frias, aguardando pacientemente pelo bater do portão, pelo som do motor que encosta à berma, pelo sotaque misturado com o francês, e pelas gargalhadas que, durante o mês de agosto, lhe devolvem o pulsar.
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Mário Silva conseguiu, através da sua lente, captar mais do que uma estrutura física; captou um estado de espírito coletivo.
Esta casa não está vazia; está apenas a reter o fôlego, orgulhosa e expectante, certa de que quem partiu, por mais longe que vá, acaba sempre por voltar a casa.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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