MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

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"Não tenho nenhum talento especial.
Apenas sou apaixonadamente curioso."
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"Apanha tradicional da batata transmontana" – Mário Silva

Fotografia (editada) por Mário Silva

" Apanha tradicional da batata transmontana"

Mário Silva

Enquadramento e Sensibilidade Fotográfica

A fotografia de Mário Silva, intitulada "Apanha tradicional da batata transmontana", capta com pungente realismo um dos momentos mais emblemáticos, comunitários e desgastantes do calendário agrícola do interior norte de Portugal.

Longe da mecanização fria que descaracteriza os campos modernos, a lente do fotógrafo mergulha-nos diretamente na terra lavrada, onde corpos curvados e sacos de serapilheira cheios testemunham o esforço humano bruto.

Em pano de fundo, as serras majestosas e a vegetação transmontana emolduram a cena, oferecendo um contraste estético entre a beleza imutável da paisagem e o rigor físico do trabalho diário.

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O Suor na Forja do "Inferno" Transmontano

Diz o rifão popular, moldado pelos séculos e pela experiência da pele, que o clima de Trás-os-Montes se define em duas palavras: "nove meses de inverno e três de inferno".

É precisamente sob o desígnio destes últimos que se realiza uma das tarefas mais exigentes e vitais para a subsistência da região — a apanha da batata.

Na sua extraordinária fotografia, Mário Silva imortaliza este ritual coletivo, despindo-o de qualquer romantismo idílico para nos revelar a essência do labor na sua forma mais pura: o Homem em comunhão e confronto com a terra.

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O cenário retratado evoca o pino do verão, altura em que o sol transmontano deixa de ser um aliado e passa a governar os campos com um rigor implacável.

Nestes dias, o termómetro sobe facilmente além dos quarenta graus.

O ar torna-se denso, quase irrespirável, e a terra revirada liberta uma poeira fina que se cola à pele banhada em suor.

É neste "inferno" climático que os homens e as mulheres de Trás-os-Montes se dobram sobre o solo, num exercício repetitivo de paciência e resistência física que começa com as primeiras luzes da aurora e se estende até ao crepúsculo.

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Olhar para esta imagem é escutar o silêncio pesado do campo, interrompido apenas pelo roçar das mãos na terra dura, pelo baque seco das batatas a cair nos cestos de vime e pelo arquejar cansado dos trabalhadores.

Há uma dignidade ancestral em cada coluna dobrada; uma coreografia de esforço partilhada por gerações que aprenderam a arrancar o sustento das entranhas da rocha e do xisto.

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Na composição visual, os pesados sacos de serapilheira em primeiro plano funcionam como marcos de vitória contra a aridez do dia.

Cada saco cheio representa horas de abdicação, onde a humidade preciosa do corpo se evapora sob o olhar atento das montanhas distantes.

Ao fundo, a presença discreta de um cão e o esforço coordenado de vários braços sublinham o caráter familiar e comunitário desta jorna.

Em Trás-os-Montes, a apanha da batata raramente é um ato solitário; trata-se de um sistema de entreajuda, onde vizinhos e familiares se unem para vencer o tempo e a intempérie antes que o calor extremo queime o fruto ou que as trovoadas súbitas de verão estraguem a colheita.

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A fotografia de Mário Silva transcende o mero registo documental para se tornar num monumento visual à resiliência transmontana.

Lembra-nos que por trás de cada alimento que chega à mesa urbana existe uma história de sacrifício, onde o corpo humano serve de bigorna e o sol de martelo.

É uma homenagem justa e profundamente tocante àqueles que, ano pós ano, continuam a desafiar o "inferno" para manter viva a alma e o sustento da terra mãe.

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Texto & Fotografia (editada): ©MárioSilva

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