Entre o Céu e o Granito:
A Torre Sineira de Santo Estêvão
em Monção
e o Eco do Primeiro Mártir

Através da objetiva atenta de Mário Silva, somos convidados a elevar o olhar acima do casario minhoto.
Na sua fotografia intitulada "Igreja de Santo Estevão (torre sineira) – Monção", a torre ergue-se com uma serenidade imponente, rasgando um céu de tons quentes e suaves.
.
O enquadramento é de uma beleza clássica: em primeiro plano, a exuberância verde de uma árvore contrasta vibrante com o mar de telhados de barro alaranjado, típicos das vilas históricas portuguesas.
No centro da composição, desponta a torre sineira, onde o granito cinzento, laboriosamente esculpido, abraça a alvenaria branca.
O topo da estrutura é coroado por um intrincado catavento de ferro forjado, apontando aos ventos do tempo, enquanto nos arcos perfeitos repousa o sino, o mensageiro metálico da comunidade.
.
Contudo, para lá da sua beleza arquitetónica, esta torre carrega o peso e a glória de um nome basilar na história do cristianismo: Santo Estêvão.
.
Santo Estêvão: O Serviço e a Coroa do Martírio
A imponência pacífica desta igreja em Monção contrasta fortemente com a vida breve e turbulenta do santo que lhe dá o nome.
Para compreender a essência de Santo Estêvão, é necessário recuar aos primórdios da Igreja, em Jerusalém, no primeiro século.
.
Na tradição católica e cristã em geral, Estêvão é reverenciado por duas razões fundamentais:
O Diácono da Caridade: Estêvão foi um dos sete primeiros diáconos escolhidos pelos Apóstolos.
A sua missão não era inicialmente a pregação, mas sim a distribuição equitativa de alimentos e esmolas aos mais pobres e às viúvas da comunidade helenista.
Ele representa, assim, o serviço desinteressado, a compaixão e o pilar da caridade social da Igreja embrionária.
.
O Protomártir: O termo grego Stephanos significa "coroa".
Estêvão fez jus ao seu nome ao tornar-se o Protomártir, ou seja, o primeiro mártir do cristianismo.
Homem de profunda sabedoria e retórica, os seus discursos inflamados e a sua defesa feroz da fé perante o Sinédrio judaico atraíram a ira das autoridades religiosas.
.
A Lapidação: A sua vida culminou num ato de extrema violência, tendo sido arrastado para fora dos muros da cidade e apedrejado até à morte (lapidação).
A tradição relata que, enquanto as pedras o atingiam, Estêvão ergueu os olhos aos céus, perdoando aos seus algozes, num gesto de profunda imitação de Cristo.
(Curiosamente, um dos jovens que assistiu e consentiu na sua morte foi Saulo de Tarso, que mais tarde se converteria e se tornaria no Apóstolo São Paulo).
.
A Torre como Metáfora
Olhando novamente para a fotografia de Mário Silva, é fácil traçar um paralelismo poético entre a estrutura física e a figura espiritual de Santo Estêvão.
.
A torre sineira, firme na sua base de granito minhoto, assemelha-se à inabalável convicção do mártir perante os que o condenavam.
Os sinos, abrigados nos vãos da torre, espalham o seu som por toda a vila de Monção, chamando o povo à congregação, tal como a voz de Estêvão ecoou na antiguidade, defendendo a sua fé de forma audaz e límpida.
E, por fim, a cúpula com o seu trabalho em ferro, que se estica em direção às nuvens, espelha o olhar final de Estêvão, focado no alto, para lá das pedras e das vicissitudes terrenas.
.
A imagem não capta apenas pedra, argamassa e ferro; capta a memória contínua de uma vila que, através dos séculos, mantém vivo o nome e o sacrifício daquele que foi o primeiro a usar a "coroa" do martírio.
.
Texto & Fotografia: ©MárioSilva
.
.
