MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

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"Não tenho nenhum talento especial.
Apenas sou apaixonadamente curioso."
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O Movimento Perpétuo do Quotidiano: Entre o Engenho e a Expressão “Andar à Nora”

Fotografia de Mário Silva

O Movimento Perpétuo do Quotidiano:

Entre o Engenho e a Expressão

 “Andar à Nora”

Há expressões na língua portuguesa que guardamos no bolso do quotidiano sem pensarmos no chão de onde brotaram.

Na extraordinária fotografia de Mário Silva, intitulada "Andar à nora" somos transportados para o coração do Portugal rural, onde o ferro oxidado de um velho engenho repousa sobre a água.

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Esta imagem é o ponto de partida perfeito para desenvencilhar um novelo que une a engenharia ancestral à nossa psicologia mais confusa.

Afinal, o que significa, no sentido literal e figurado, "andar à nora"?

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O Engenho Literal: A Força do Sangue e da Água

Olhando de perto para a fotografia, vemos uma estrutura metálica que outrora foi o motor da vida numa propriedade agrícola.

A nora é um engenho hidráulico introduzido na Península Ibérica pelos árabes (da palavra na'urah), concebido para extrair água de poços e poças para irrigar os campos de cultivo que se estendem em fundo.

O funcionamento deste mecanismo era mecânico, mas dependia profundamente da tração animal:

O Caminho Circular: Um burro, macho ou boi era atrelado ao braço do engenho.

A Venda nos Olhos: Para evitar que o animal ficasse tonto com a rotação contínua ou que se recusasse a caminhar sem sair do sítio, colocavam-se-lhe antolhos ou uma venda.

O Resultado: À medida que o animal andava em círculos, a grande roda vertical girava, elevando uma corda ou corrente com alcatruzes (baldes) cheios de água, que depois a despejavam num canal de rega.

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O bicho caminhava quilómetros sem avançar um único metro.

Trabalhava arduamente, mas o seu horizonte era um eterno retorno ao ponto de partida.

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A Expressão Idiomática:

Quando Nós Somos o Animal da Nora

É precisamente deste cenário que nasce a expressão popular «andar à nora».

Quando a usamos em Portugal, estamos a descrever um estado de desorientação, perplexidade ou sobrecarga mental.

A transição do sentido literal para o figurado é de uma poesia visual fantástica:

Estar perdido ou confuso: Tal como o animal de olhos vendados, quem "anda à nora" não consegue ver o caminho com clareza nem perceber para onde se está a dirigir.

Trabalhar sem sair do sítio: Sabe aqueles dias em que resolve mil problemas, corre de um lado para o outro, mas chega ao fim do dia com a sensação de que não progrediu nada?

É o efeito mecânico da nora.

Falta de controlo: Estar à nora implica que estamos a rodar num sistema que não controlamos, apenas reagindo ao impulso que nos empurra para a frente.

Curiosidade Linguística: Embora hoje usemos a expressão para designar alguém que não percebe nada de um assunto ou que está "apanhado pelo clima", a sua raiz prende-se estritamente com a exaustão do movimento circular e cego.

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Um Espelho de Ferro e Sol

A fotografia de Mário Silva capta este engenho agora estático, banhado por uma luz quente que ilumina a terra lavrada.

Hoje, as bombas elétricas substituíram a força dos animais e o ranger do ferro velho tornou-se silêncio.

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Porém, a ironia permanece viva: a máquina de ferro parou, mas nós, na azáfama da vida moderna, continuamos muitas vezes a "andar à nora", de olhos vendados pelo stress, a girar em círculos no mesmo poço de sempre.

Olhar para esta imagem é também um convite para parar o engenho, tirar a venda e contemplar o horizonte.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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