"Um dia numa praia deserta"
(Emotiva Estória)
Mário Silva

Na fotografia de Mário Silva, a vastidão serena de "Um dia numa praia deserta" convida a alma a abrandar e a viajar para dentro de si mesmo.
As águas cristalinas, o areal desimpedido e o horizonte longínquo não formam apenas um cenário natural deslumbrante; são a tela perfeita para uma estória sobre a memória, a perda e a pacificação do coração.
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Os Passos do Passado
Clara descalçou as sandálias mal sentiu a textura da areia fina debaixo dos pés.
O vento morno acariciou-lhe o rosto marcado pelo tempo, trazendo consigo o cheiro denso a maresia — o perfume exato dos verões da sua juventude.
Olhou em redor, respirando o silêncio.
A praia, habitualmente pontilhada por guarda-sóis coloridos e vozes agitadas nos meses quentes, estava agora completamente deserta, entregue à melancolia doce da época.
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Ao caminhar em direção à rebentação suave, os seus olhos fixaram-se nas pegadas irregulares que marcavam o areal imaculado.
Sorriu, sentindo a garganta apertar-se num nó familiar.
O pensamento voou imediatamente para o Miguel.
Lembrou-se de como, há tantos anos, eram eles os donos daquela praia nas madrugadas de agosto, correndo lado a lado, rindo enquanto a espuma gelada das pequenas ondas lhes beijava os calcanhares.
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Agora, as marcas na areia pareciam os ecos visíveis daquele amor, lembretes de que alguém tinha ali estado, de que ela não caminhava verdadeiramente sozinha.
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O Horizonte e o Barco Branco
A água, de um azul-turquesa hipnótico e transparente, refletia uma calma quase irreal.
Clara parou mesmo no limite onde o mar se desfazia numa pequena onda de espuma branca.
A ausência de ruído do mundo moderno permitia que o murmúrio da água fosse a única banda sonora daquele reencontro invisível.
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Ao erguer os olhos, focou-se nas montanhas escuras que recortavam o horizonte longínquo.
Por trás da linha pontilhada de boias amarelas que balançavam preguiçosamente ao sabor da corrente, um pequeno barco branco rasgava as águas calmas.
O seu trajeto lento e constante fez Clara suspirar.
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Durante muito tempo, após a partida do Miguel, a dor fora um mar tempestuoso, um oceano revolto que ameaçava afogá-la todos os dias.
Mas ali, ao observar a embarcação a afastar-se rumo ao desconhecido, compreendeu que o seu próprio luto tinha mudado.
O barco era o tempo.
Implacável, silencioso, mas que acaba sempre por nos levar a águas mais tranquilas.
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A Solidão Acompanhada
À sua direita, o robusto promontório rochoso erguia-se como um guardião antigo, protegendo aquela enseada isolada.
Clara abraçou o próprio corpo, não de frio, mas num gesto de conforto.
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A dor aguda da ausência dera lugar a uma saudade mansa, luminosa e vasta como o oceano à sua frente.
"Um dia numa praia deserta" não era um sinónimo de solidão amarga, descobriu ela naquele instante.
Era um privilégio.
Era o espaço necessário para ouvir a voz de quem já partiu, trazida no vento suave.
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Fechou os olhos, absorvendo os raios de sol na pele, e sussurrou um agradecimento ao mar.
Quando finalmente se virou para voltar a casa, deixou as suas próprias pegadas ao lado das outras, sabendo que as marés viriam apagá-las, mas que a paz encontrada naquela manhã permaneceria intocável no seu peito.
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Estória & Fotografia: ©MárioSilva
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