O Ouro da Madeira e a
Poesia do Engenho:
O "Pipo do Correio"
em Sá

Na aldeia de Sá, em Ervões, concelho de Valpaços, o granito dourado das paredes acolhe mais do que pedras e argamassa: guarda a alma engenhosa e poética das gentes transmontanas.
Na fotografia de Mário Silva, intitulada "Original 'pipo do correio'", a sabedoria popular revela-se num gesto de surpreendente criatividade, onde a utilidade se veste de tradição e o quotidiano ganha o tom afetuoso da arte comunitária.
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O olhar prende-se de imediato naquele pequeno barril de madeira, encravado com mestria no muro de pedra caiada de sol.
Onde outrora se guardou o néctar das vinhas da região, a imaginação de quem ali habita rasgou uma fenda acolhedora e afixou com esmero o número trinta e seis.
O pipo, abraçado pelos seus arcos de ferro e moldado pelas aduelas de madeira gasta pelos anos, renasceu com uma nova e nobre missão: já não guarda o vinho que aquece o corpo nas noites frias de inverno, mas recolhe as palavras, os postais e as notícias que encurtam as distâncias da vida.
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Há uma poesia profunda neste ato de reinvenção.
As mãos que trabalham a terra e curvam as costas na poda no Alto Tâmega não descartam o passado; dão-lhe uma nova voz.
A capacidade imaginativa do povo transmontano transforma um objeto de adega numa peça única de arquitetura afetiva.
É o triunfo da autenticidade sobre o produto feito em série, do afeto esculpido à mão sobre o utilitário impessoal.
Cada carta ali depositada, na boca rasgada na madeira nobre, parece ganhar o aconchego de uma casa que sabe receber.
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O registo atento de Mário Silva capta mais do que uma curiosidade pitoresca; homenageia a identidade viva e engenhosa de Trás-os-Montes.
É na capacidade de olhar para um velho pipo e nele enxergar uma caixa de correio que se mede a verdadeira riqueza deste povo — um povo prático e resistente, mas dotado de um lirismo espontâneo capaz de florir no meio da pedra dura.
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Ao contemplar este "pipo do correio" encravado no granito luminoso de Sá, que outras memórias do engenho e da criatividade das gentes do nosso interior lhe vêm ao pensamento?
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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