MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

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"Não tenho nenhum talento especial.
Apenas sou apaixonadamente curioso."
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O Fuso Horário do Granito: A Poesia de um Relógio que Leva a Vida sem Pressa - Monte de Arcas – Tinhela/Alvarelhos – Valpaços – Portugal

Fotografia de Mário Silva

O Fuso Horário do Granito:

A Poesia de um Relógio que Leva a Vida sem Pressa

Monte de Arcas – Tinhela/Alvarelhos – Valpaços – Portugal

Na fotografia de Mário Silva, captada no Monte de Arcas, entre Tinhela e Alvarelhos, no concelho de Valpaços, deparamo-nos com o que só pode ser descrito como o expoente máximo da teimosia transmontana perante a tirania do tempo.

A fotografia revela-nos um rústico relógio de sol, cuja fama local o precede com um título hilariante: "dizem que está atrasado 15 minutos".

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A imagem mostra-nos um maciço bloco de granito rudimentarmente esculpido, sarapintado por líquenes secos e com os seus traços e numerações já sumidos na porosidade da pedra envelhecida.

Ao centro, um simples, estoico e enferrujado pino de ferro — o gnómon — projeta uma sombra afiada, escura e perfeitamente reta sob a claridade do céu, fazendo o seu melhor para dividir o dia.

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Mas o conceito de um relógio solar "atrasado" levanta, naturalmente, questões de profunda comédia cósmica.

Como é que se atrasa um mecanismo cravado na rocha e movido pela luz celestial?

Terá o eixo da Terra pedido dispensa? Ou será que o sol adormeceu?

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A resposta não está na astronomia, mas sim na filosofia da região.

Nas terras de Valpaços, o tempo não obedece à ansiedade matemática e implacável de Greenwich; é, sim, um cavalheiro rústico que respeita o ritmo da terra.

É perfeitamente lógico que esses quinze minutos de decalagem sejam apenas a "tolerância de ponto" do próprio astro-rei.

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Um compasso de espera para dois dedos de conversa no largo de Alvarelhos, uma pausa para dar de beber aos soutos e olivais, ou talvez o tempo exato para o sol provar um cálice de vinho tinto antes de voltar a ter o trabalho de empurrar a sombra sobre o granito.

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Para além da bonomia e do sorriso imediato que o título provoca, há nesta composição de Mário Silva uma poética profunda sobre a nossa relação com os relógios.

Vivemos na era digital, onde cada ecrã de pulso conta os passos, os batimentos e os segundos, empurrando-nos frequentemente para a exaustão.

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Em contrapartida, este venerável ancião recusa-se a participar na pressa.

A sua base tosca de granito assinala que ele não conta urgências nem corre contra prazos; ele mede a eternidade, a mudança das estações e a resistência ao frio.

Se, ao cabo de décadas ou séculos de intempéries, o seu único pecado é atrasar-se um quarto de hora, não estamos perante uma falha mecânica, mas sim perante uma lição de vida.

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Esta obra recorda-nos que a pontualidade estrita de pouco serve se nos esquecermos de viver os minutos que, entretanto, passaram.

A pedra impõe a sua própria gravidade e o tempo, ali, avança quando tiver que avançar.

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Ao observar a paciência inabalável desta sombra que desliza sobre a rocha gasta, que obrigações ou rotinas no seu próprio dia a dia mereceriam, secretamente, ser vividas com este maravilhoso e estratégico "atraso" de quinze minutos?

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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