O Aterragem do Ouro Castanho:
Vertigens e Finanças no Alto dos Soutos

Na fotografia de Mário Silva, deparamo-nos com uma cena de elevado suspense existencial.
O título da obra diz tudo com aquele humor fino e observador que tão bem caracteriza as terras do norte: “As castanhas já espreitam dos altos, dentro dos ouriços e pensam: Eh, que grande tombo até lá baixo ...”.
E que tombo, de facto!
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A Vertigem do Ouriço e o Dilema da Gravidade
A imagem capta em plano fechado o momento exato em que a túnica espinhosa e dourada do ouriço abre a sua fenda defensiva.
No seu interior, reluzente, bem gorda e com aquele tom castanho-avermelhado lustroso, surge a castanha a espreitar cá para fora.
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A partir das alturas confortáveis e arejadas da copa de um castanheiro secular, olhar para o chão revestido de caruma e pedras deve provocar, com toda a justiça, uma ligeira crise de vertigens.
Ali estão elas, comodamente instaladas no seu ninho emproado e blindado por agulhas afiadas, a fazerem cálculos de física quântica sobre a velocidade terminal da queda.
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Coitadas.
Pensam elas que a grande tragédia é a despenhada lá de cima.
Mal sabem o que as espera cá em baixo.
Lá em baixo não há rede de salvação.
Há cestos de verga, sacos de ráfia, calos nas mãos e o olhar atento e cirúrgico do produtor transmontano, que não deixa passar uma única castanha sem lhe medir o peso, o calibre e o valor de mercado.
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O "Ouro de Trás-os-Montes":
Entre a Gravidade e o Orçamento Familiar
Por muito que a castanha tema a lei da gravidade, em Trás-os-Montes a sua queda é aguardada com mais expetativa do que o subsídio de Natal.
No Alto Tâmega e em toda a região transmontana, o fruto do castanheiro deixou há muito de ser apenas a "comida dos pobres" dos tempos de escassez de cereal para se transformar no verdadeiro ouro vegetal do interior.
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A importância económica da castanha para o rendimento das gentes locais é gigante:
O Subsídio ao PNB (Produto Nacional do Bocado): Quando o outono chega, a apanha da castanha mobiliza famílias inteiras, vizinhos e ranchos de trabalhadores.
É o fruto que paga as contas do ano, que financia os estudos dos filhos, que alivia a reforma escassa e que injeta liquidez real na economia rural.
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O Valor de Exportação: As variedades locais — como a célebre Judia — são cobiçadas nos mercados internacionais, partindo de Trás-os-Montes para o resto da Europa, Américas e Ásia, onde são transformadas em iguarias de alta pastelaria, como o caríssimo marron glacé.
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O Dilema do Produtor: Por isso mesmo, enquanto a castanha pensa no "grande tombo", o agricultor pensa na cotação do quilo.
Se cai cedo demais com o vento, é um ai meu Deus; se demora a abrir o ouriço, é o desespero do tempo que escasseia.
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"Para a castanha, a queda do castanheiro é o fim de um sonho de altura; para o agricultor transmontano, é o início do sustento que aquece o inverno."
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No final, após o tal inevitável "tombo", o destino da castanha dividirá as suas águas: umas irão parar aos assadores de rua, estalando sobre o sal grosso na época de São Martinho; outras terminarão em cozinhados e sobremesas requintadas; e as mais afortunadas garantirão que a sabedoria e a subsistência das aldeias do interior continuem firmes e de boa saúde.
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Ao olhar para esta castanha reluzente a espreitar hesitantemente da sua armadura espinhosa, não sente também uma certa compaixão (e um enorme apetite) por este fruto que tanto trabalho dá a colher e tanta alegria dá a saborear?
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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