MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

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"Não tenho nenhum talento especial.
Apenas sou apaixonadamente curioso."
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O Altar-Mor da Igreja Matriz de Águas Frias: Entre o Esplendor Rococó e as Marcas do Tempo

Fotografia de Mário Silva

O Altar-Mor da Igreja Matriz de Águas Frias:

Entre o Esplendor Rococó e as Marcas do Tempo

Na fotografia de Mário Silva, sob o título referente à Igreja Matriz de Águas Frias (freguesia do concelho de Chaves), sobressai o imponente retábulo-mor que domina a capela-mor deste templo transmontano.

A imagem oferece uma oportunidade preciosa para analisar a talha, o vocabulário decorativo e as intervenções de restauro ou repintura que moldaram o aspeto atual desta peça do património religioso flaviense.

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Estilo e Época:

A Transição do Barroco Tardio para o Rococó

(Século XVIII)

Analisando a estrutura arquitetónica e ornamental do altar-mor, identificam-se elementos tipológicos claros da segunda metade do século XVIII, inserindo-se na fase de transição entre o Barroco Joanino/Tardio e o Rococó (ou estilo D. Maria I no contexto português):

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Estrutura Arquitetónica: O retábulo organiza-se em três corpos verticais demarcados por quatro colunas de fuste liso sobre mísulas.

O corpo central alberga um bico de camarão de grandes dimensões onde se ergue a tribuna piramidal com trono — elemento indispensável para a exposição do Santíssimo Sacramento, muito característico do culto eucarístico setecentista.

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Capitéis e Capitéis Compósitos: As colunas ostentam capitéis de inspiração coríntia/compósita com folhagem dourada, suportando um entablamento recortado que projeta pilastras para o coroamento.

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O Arestamento Rococó (Rocaille): O coroamento e as molduras das mísulas laterais e das portas do sacrário revelam contornos em concha, concheados assimétricos e volutas vegetalistas típicas da gramática rocaille das décadas de 1760 a 1790.

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Mesa do Altar e Sacrário: A mesa do altar (com o tampo e os painéis frontais bojudos e recortados) exibe igualmente o recorte elegante da talha de transição para o neoclassicismo.

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Análise Cromática:

Serão estas as Cores Originais?

Uma das questões centrais ao observar este retábulo prende-se com a sua policromia.

A combinação de fundos num creme/bege claro, mármores simulados em tons pastel/ocre nas colunas, apontamentos em azul-celeste no fundo do trono e dourados nas molduras suscita uma leitura atenta sobre a evolução do acabamento da madeira.

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A Prática da Repintura Neoclássica e Historiadora (Séculos XIX e XX)

É extremamente provável que a paleta de cores que hoje observamos não corresponda na íntegra à policromia original do século XVIII.

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Durante os séculos XIX e meados do século XX, muitas igrejas portuguesas passaram por campanhas de "renovação" ou "limpeza visual".

A estética rococó original, que frequentemente combinava ouro fino (folha de ouro) com policromias ricas (como azuis profundos, encarnados e brancos de gesso bem polidos), foi em muitos casos coberta por repinturas a tinta de óleo ou têmpera.

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Os Mármores Simulados e o Tom "Marmorizado"

A imitação de mármore (marmorizado) presente no corpo das colunas era, de facto, uma técnica comum desde o século XVIII para poupar na utilização da folha de ouro ou da pedra verdadeira.

Contudo, os tons bege-amarelados e o acabamento plácido dos fundos atuais do retábulo de Águas Frias mostram sinais evidentes de intervenções de conservação/repintura posteriores, com tintas de acabamento contemporâneo que uniformizaram a superfície do retábulo.

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O Fundo Azul do Trono

O tom azul-bebé/celeste que forra o nicho central do trono é uma escolha recorrente em restauros de cariz paroquial dos meados do século XX, visando simular o céu e dar destaque à imagem de Cristo/Menino Jesus que o coroa.

Na sua origem setecentista, é provável que esse fundo ostentasse um tom azul mais escuro (azul-ultramarino ou cobalto) ou motivos fitomórficos sobre folha de ouro e prata aplicados com técnica de estofado.

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Síntese Patrimonial

O altar-mor da Igreja Matriz de Águas Frias é um belo exemplar da talha transmontana do final do século XVIII, refletindo a devoção e os recursos da comunidade flaviense nessa época.

Embora a sua policromia atual seja o resultado de intervenções e repinturas que suavizaram e alteraram as tonalidades vibrantes da sua origem, o retábulo mantém intacta a sua imponência formal, o equilíbrio das suas proporções e o valor histórico do trabalho dos mestres entalhadores de Trás-os-Montes.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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