MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

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"Não tenho nenhum talento especial.
Apenas sou apaixonadamente curioso."
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“As fitas coloridas”

Fotografia de Mário Silva

“As fitas coloridas”

Nas aldeias do nosso interior, a fronteira entre a rua e o refúgio do lar raramente é feita de trancas apertadas ou silêncios pesados.

Na fotografia de Mário Silva, deparamo-nos com um dos elementos mais singulares e poéticos da vivência vernacular portuguesa: a cortina de fitas que guarda a soleira da porta.

Mais do que um simples utilitário doméstico, esta cascata cromática é um manifesto de hospitalidade que desafia a austeridade e o peso da pedra.

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A composição da imagem vive de um contraste deslumbrante entre a rigidez secular e a leveza do movimento.

A enquadrar a entrada, ergue-se uma fachada de robustos blocos de granito, marcados por veios, rachaduras profundas e pela textura rústica que testemunha a resistência às intempéries.

Contudo, a dureza desta alvenaria é subitamente quebrada por uma explosão vibrante de cor.

As longas tiras verticais oscilam num padrão alegre de amarelo, azul, encarnado, verde, branco e preto, caindo com fluidez sobre os degraus de pedra irregulares e sobrepondo-se ao fundo de uma porta de madeira pintada de verde-escuro.

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Esta singela invenção rural cumpre um propósito prático irrepreensível: barrar a entrada aos insetos nos dias quentes e quebrar a agressividade da luz solar, permitindo em simultâneo que a brisa fresca circule livremente pelos corredores e cozinhas.

No entanto, na sua dimensão poética, as fitas coloridas funcionam como as pálpebras da casa.

Elas filtram o olhar curioso de quem cruza a rua, protegendo a sagrada intimidade da família, mas mantendo a casa permeável ao mundo.

Acompanhada pela presença de uma clássica caixa de correio vermelha e gasta, fixada diretamente no granito à sua direita, a cortina de fitas é o sinal claro de uma casa viva, que respira e que aguarda correspondência, passos conhecidos e dois dedos de conversa.

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Há uma musicalidade nostálgica suspensa nesta fotografia.

Quem conhece a alma destas aldeias consegue quase escutar o suave e característico roçar do plástico quando o vento do Alto Tâmega as penteia, ou quando uma mão familiar as afasta de forma fluida para entrar na frescura do lar.

Elas são, no fundo, o sorriso colorido de uma habitação que sabe que a alegria pode e deve adornar a força inabalável do granito.

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Ao observar o cair destas fitas vibrantes que guardam a entrada ladeada pela velha caixa de correio, que memórias de infância, sons ou aromas lhe vêm à mente quando recorda os longos dias de verão passados nas aldeias do nosso país?

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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