A Tríptica Ciência das Beatas:
Da Igreja à Janela,
Terminando no Cinzeiro

A língua portuguesa é um pródigo alfobre de duplos sentidos, mas poucas palavras condensam tanta sociologia urbana e rural numa única trissílaba como o termo "beata".
Na composição digital de Mário Silva, sob o título "Beatas - O que há em comum e o que as difere!!!!", somos confrontados com um tríptico bem-humorado e mordaz que disseca, entre o riso e a acidez, as três variantes fundamentais desta entidade tão tipicamente nossa.
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Três Faces da Mesma Moeda
A montagem fotográfica organiza-se num mostruário quase científico, onde cada painel ilustra uma definição do dicionário e uma instituição do nosso quotidiano:
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Devoção Religiosa (A Beata do Altar): À esquerda, a encarnação clássica e institucional.
De lenço rendado à cabeça, olhos suavemente cerrados e mãos enrugadas a desfiar as contas de madeira do terço na penumbra da igreja, esta beata habita o plano da fé puritana.
Vive em permanente contrição, oferecendo orações pela salvação da sua alma — e, por acréscimo de caridade, cobrindo as faltas do resto da freguesia.
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Moralismo Excessivo, Falsa Virtude, Hipocrisia (A Beata da Janela): No centro, a santidade sofre uma mutação sociológica dramática.
A beata de igreja ganha corpo e debruça-se ao peitoril da janela, armada com o seu olhar de raio-X e o sobrolho franzido num julgamento sumário.
É o mais sofisticado sistema de videovigilância sem recurso a inteligência artificial: inspeciona quem passa, calcula a hora a que o vizinho recolhe, fiscaliza o tamanho das saias e decreta a ruína moral do bairro antes da hora do almoço.
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Parte Final de um Cigarro que Sobra (A Beata da Esplanada): À direita, despida de qualquer pretensão espiritual ou moral, surge a versão literal e consumível.
Amontoadas num cinzeiro de alumínio sobre a mesa de uma esplanada, repousam as beatas de tabaco — os restos queimados, pisados e descartados de um vício que se extinguiu.
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O Fumo, a Cinza e o Julgamento
A verdadeira mestria da sátira visual de Mário Silva reside em obrigar o leitor a procurar o denominador comum entre três realidades aparentemente distantes:
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A Produção de Fumo: Todas elas libertam a sua própria névoa.
A primeira exala o fumo denso do incenso litúrgico; a segunda lança o fumo tóxico da maledicência que empesta a rua; a terceira consome-se no fumo cinzento da nicotina.
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O Consumo Lento: As três definham ao longo do tempo.
Se o cigarro se queima em minutos, a beata moralista consome a sua própria vida a policiar a dos outros, enquanto a devota desgasta os joelhos e as contas do rosário até ao fim dos seus dias.
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O Descarte: No fundo, nenhuma delas deixa um sabor verdadeiramente doce quando se prolonga além da conta — seja pelo excesso de sermão, pela toxicidade da cusquice ou pelo cheiro acre do tabaco apagado.
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“A beata de igreja reza pelos nossos pecados; a beata da janela inventa-os; e a beata do cinzeiro é a única que assume, sem fingimento, que já não passa de uma sobra queimada pelo tempo.”
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Com este registo irónico e acutilante, Mário Silva prova que a fotografia digital também é um excelente veículo para a crítica de costumes, retratando as contradições do comportamento humano com o mesmo rigor com que documenta as paisagens e a biodiversidade do Alto Tâmega.
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Ao observar esta tríplice comparação de Mário Silva, qual destas três "beatas" considera ser a mais difícil de tolerar no quotidiano de uma aldeia ou cidade?
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Texto & Fotografia digital (IA): ©MárioSilva
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