MARYUS _ Fotografia_Pintura_AI

*****
"Não tenho nenhum talento especial.
Apenas sou apaixonadamente curioso."
*****

A rusticidade de um Povo e a Arte Sacra de granito - Pormenor da fachada exterior da Capela de Nossa Senhora do Rosário - Mairos – Chaves – Portugal

Fotografia de Mário Silva

A rusticidade de um Povo

e a Arte Sacra de granito

Pormenor da fachada exterior

Capela de Nossa Senhora do Rosário

Mairos – Chaves – Portugal

Na capela de Mairos, concelho de Chaves, a fé não se veste de talha dourada ou mármores polidos, mas sim da matéria primordial que sustenta as terras do Alto Tâmega.

O registo fotográfico de Mário Silva, revela uma devoção talhada a frio e a cinzel na dureza da pedra.

É na rugosidade deste material, pontuado por manchas escuras e marcas inegáveis do tempo, que a identidade transmontana encontra o seu espelho mais autêntico.

.

A Poética da Pedra Imperfeita

A composição fotográfica centra-se num nicho escavado na parede de blocos irregulares, encimado por um rústico frontão triangular.

No seu interior repousa uma singela escultura da Virgem coroada segurando o Menino nos braços.

As feições das figuras encontram-se profundamente desgastadas, exibindo contornos arredondados e difusos, desprovidos do detalhe e do perfecionismo da arte clássica.

Esta aparente rudeza, contudo, é a sua maior força espiritual.

A imagem não foi esculpida para deslumbrar pela riqueza, mas sim para durar.

É uma padroeira telúrica, nascida da mesma rocha matriz que ergue as casas, que delimita os campos e que calça as ruas da aldeia, partilhando assim da mesma resistência estoica daqueles que a veneram.

.

A Corrente e o Eco do Tempo

A rasgar verticalmente a fotografia, uma fina, mas pesada corrente de ferro enferrujado pende diante do nicho sagrado, terminando num amontoado de elos na base.

Este pormenor, provavelmente ligado ao sino que outrora — ou ainda hoje — marca o ritmo da comunidade, introduz uma profunda metáfora tátil.

O ferro escurecido pela oxidação carrega a memória das intempéries e, de forma invisível, o toque de sucessivas gerações de mãos calosas que o puxaram.

A corrente funde-se com as letras rudimentares cinzeladas a cinzel na pedra logo abaixo do nicho, criando um diálogo visual entre o trabalho braçal e a elevação espiritual.

.

Esta é a verdadeira arte sacra do interior português: uma arte que não se isola em redomas de vidro, mas que enfrenta o granizo, o vento cortante e o sol abrasador sem perder a sua serenidade.

A rusticidade não é aqui sinónimo de pobreza, mas sim de uma verdade inabalável que dispensa artifícios.

Ao contemplar esta Virgem de contornos gastos pelo tempo, guardada por uma simples corrente oxidada, de que forma sente que a ausência de perfeição estética pode, muitas vezes, tornar um objeto ou um lugar ainda mais sagrado e acolhedor?

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

 

0